sábado, 29 de maio de 2010

Quando chega


Esperar pode parecer um martírio, um verdadeiro saco para os mais ansiosos, um tormento para os mais angustiados, um inferno intenso para os mais irritados. Mas se desse pra perceber antes que o melhor de tudo é esse mistério da espera,do que está pra vir, essa pressa pra que aconteça logo tudo, a expectativa, os planos e as promessas. Se nós soubessemos, se eu soubesse, se quisesse saber... talvez tudo fosse um pouco mais divertido do que essa paz que resolve imperar quando o dia que chega, termina.Quando o que é muito se torna pouco pra depois transformar novas vibrações em novas esperas ansiosas, angustiantes e irritantes...um passo para o martírio, dois passos pra toda essa ânsia de aproveitar tudo e beber até o último gole daquela água.
Meu corpo está calmo, meus pensamentos meio parados, até quando?

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Férias de mim


Estive pensando se uma hora qualquer posso tirar férias, férias de mim.Ando muito cansada, meio esgotada de tantas características que não se descolam de mim. Cheia dos argumentos que sempre utilizo, das vezes que uso a palavra sim ou não.É muito difícil ser eu mesma todos os dias, até porque eu mudo de idéia com muita facilidade, subo as escadas muito depressa e depois quero descer. Emagreço e depois engordo tudo de novo. Mesmo sendo vários eus, é chatinho. Já pensou?Um dia eu quero e no outro não, uma hora eu me importo com as questões sociais do mundo e no outro dia não quero nem levantar da cama. Um dia geniosa, outro ingênua, outro louca, outro sã. Afffff...cansa a pele, desgasta a sola do sapato, desfaz as idealizações, e as questões que surgem? Quem aguenta meu Deus?Preciso tirar férias de mim.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Filha de nomes compostos


Eu sou filha de nomes compostos: José Arthur e Maria Laura. Mas meu nome é Alice sozinha mesmo. Tenho tradição pelos nomes compostos, fora meus pais, todos os meus tios e tias também os possuem. Eu podia ignorar a história dos nomes, mas não posso. Amo psicanálise e sou fanática por coisas do inconsciente. Eu me chamo só Alice, mas quero que meus filhos tenham nomes compostos, se um dia eu os tiver: É Maria alguma coisa e João alguma coisa, ou José alguma coisa. O nome da mulher do meu irmão é Alessandra Helena, mas do meu irmão é só Marcos mesmo. Mas eu fiquei pensando se ele também tem uma questão por nomes compostos, será?Sei lá, o meu namorado tem nome simples, mas gosta da idéia de poder dar dois nomes para os nossos filhos imaginários. A propósito, meu namorado se chama Miguell, com duas letras L no nome. Mas a questão é que há um tempo atrás namorei um Miguel com um L só, e namorei um tempão. Estranho para os outros, pra mim mim é tão inconsciente, desejado. Coincidência serve para os outros com nomes simples e compostos, pra mim está tudo dentro e de acordo...sempre. Continuando com a minha tradição de nomes compostos eu acho muito louca essa história do meu gosto por nomes na possibilidade de conseguir usar dois nomes lindos constituindo uma mesma pessoa.É incrível.

sábado, 24 de abril de 2010

Gatos amarelos




Ter um gato é estar preparado para lidar com o seu próprio ego(clichê), mas e ter dois ou mais?Tenho pensado nisso e acho que talvez ter dois ou mais gatos seja se entregar e cair dentro de um mundo estranho e desgovernado construído por nós mesmos. Veja bem como as coisas funcionam aqui em casa, tenho que berrar várias vezes pela casa assim: Quem manda aqui sou eu!!!!Até pareço louca, mas eles não querem entender que existe alguém que manda na casa, que existe alguém dono daquela imensa cama arrumada que eles pensam que foi feita pra eles, eles não compreendem que o sofá da sala é para visitas, ou que meu almoço ou lanche é meu. Meus gatos amarelos sofrem do mesmo mal que eu, são introspectivos, independentes, gulosos, persistentes, preguiçosos, careeentes... na maioria das vezes eu me enxergo neles. Estive pensando:Só posso usufruir do carinho deles se eu me acalmar, isso mesmo, quando eu chego toda agitada, de porre, estressada, cheia de coisas na cabeça...nada deles quererem sentar no meu colo, mas bastou eu tomar banho, relaxar, pegar um livro ou sentar em frente a tv, pronto!Lá vem eles com seu rabo longo se enroscando em mim como se eu fosse a própria fêmea deles, sim os dois são machinhos, bem...pelo menos foi o que eu pensei quando os peguei para adoção, logo mais quando a veterinária nos visitou para dar a vacina, veio a notícia: Miltinho, meu gato mais dengoso não tem testículos, ou seja ele é hermafrodita, meu dengoso é meio macho meio fêmea. E Geninho? Meu gato mais cuidadoso, tímido com seu miado rouco que eu achava tão charmoso... é asmático...sim meus gatos amarelos tem esses probleminhas diferentes...mas eu amo essas pequenas coisas e amo que eles estejam comigo, me acompanhando com seus miados diferentes, com essa beleza intransponível, essas atitudes tão diversas...estou agora sempre munida de histórias pra contar...histórias que eu aprendo com eles e levo pra análise, minha catarse absoluta.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Movimento: o corpo e a clínica

Uma tese muito bacana que eu encontrei quando procurava material para minha monografia da pós, com fonte segura e orientação de Joel Birman. Vale a pena ler.
É um estudo do corpo em sua qualidade sensível, buscando evidenciar que é sobre este que incidem as formas de dominação contemporâneas na medida em que o corpo vem sofrendo, na atualidade, um processo de anestesiamento em seu campo intensivo, seja por uma sobre-excitação da sensação ou, ao contrário, pelo seu apagamento. Tal anestesiamento decorre dos novos modos de subjetivação contemporâneos em que a vida se tornou o lócus privilegiado das intervenções dos poderes. O corpo entediado, esvaziado de suas forças singulares produtivas, tem sido resultante da complexa rede de ingerências a que tem sido exposto.

http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=517635&indexSearch=ID

Acabei


Acabei de ser feliz, de pensar em você,
acabei de entender Melanie Klein, acabei de esquecer,
acabei de sofrer com as minhas críticas, quais eram?
Acabei de repetir os mesmos erros, já consertei.
Acabei de chorar sem motivo, agora os tenho,
acabei de ouvir músicas, lembrei,
acabei de deixar de lado as preocupações, acabei de chamá-las pra perto de mim.
acabei de tentar, frustei, consegui.
acabei de enjoar de mim mesma, continuo........

sexta-feira, 5 de março de 2010

Alice no País das maravilhas


"Então, ela pensava consigo mesma (tão bem quanto era possível naquele dia quente que a deixava sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer um colar de margaridas era mais forte do que o esforço de ter de levantar e colher as margaridas, quando subitamente um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou correndo perto dela."

Naquela mesa


Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela Mesa
(Nelson Gonçalves)
Composição: Sérgio Bittencourt

Paro ou continuo a andar depressa para esquecer?


O silêncio existe.
Ele é oriundo da paz ou da falta. Mas enquanto a paz ainda não me pertence, a falta.
Falta do cheiro, voz, gargalhada, oração, presença.
Sim o silêncio que existe no meio do turbilhão da rotina, nos carros que buzinam, na música que teima em tocar alta, na televisão com todos aqueles canais incríveis, nas conversas com os amigos tomando cerveja. O silêncio existe no meio das novidades, acontecimentos, surpresas.

Existe e persiste tanto que me deixa um pouco confusa, preciso de barulho?Preciso andar depressa?
Nostalgia, revivo o que passou ou o que nem chegou a acontecer, mergulho, enterro, caio, levanto, viajo em oportunas idealizações.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Terapia dos gatos


Mais conhecida como massagem capilar a psicogatoterapia melhora qualquer estado de humor, acaba com o estresse do cotidiano e tira as rugas de preocupação.Eles podem parecer ariscos, mau-humorados, interesseiros pela boca de quem nunca teve se quer um gatinho em casa. Pra quem tem essa sorte e lida diariamente com suas características de personalidade, é uma grande terapia.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Do que é que eu preciso?


Quando o silêncio e a ausência se instalaram pelos arredores dos meus pensamentos achei que não poderia me divertir tão cedo, sentir prazer tão rápido e inúmeras vezes, rir tão alto, cantarolar músicas pela casa, me sentir confortável e correr sem freios para o que as mudanças me permitissem.
Achei que os passos fossem lentos, que o tempo se arrastasse, que as palavras falhassem, que a inspiração fosse dada como "em falta", que as histórias perdessem a graça, que as comédias virassem apenas ironias, que o sentido das coisas fosse alterado.
A saudade e a ausência são devastadoras e impertinentes, são indescritíveis e imensuráveis, são complicadas. E não existe espaço pra correr, nem o que dizer, nem o que querer, nem o que fazer, porque simplesmente falta. Seria melhor sentar e esperar, seria melhor sofrer, seria mais fácil querer?
Pensei nas distrações, convivemos com inúmeras, pensei em fugir, mas eu mal comecei a tolerar, eu mal comecei a amadurecer, a crescer, a inventar saídas, plantar meu jardim, cuidar dos meus gatos e de mim mesma.
Eu ainda não sou inteira, eu ainda não posso sair de mim, nem mesmo me proteger do que me traz medo, angústia,tristeza e solidão.
Eu ainda não posso, eu ainda não sei o que escrever, o que dizer, o que sentir, mas estou aqui. E partindo da minha presença, das minhas fugas, dos meus ensaios e da minha ignorância, revelo minhas fragilidades. Ninguém sabe sofrer, nunca existiu uma escola de superação de dor, de pesar, nunca houve um médico, um psicólogo, um psiquiatra que pudessem confortar, que trouxessem em sua bolsa soluções que amenizassem a perda e a saudade. Talvez eles nem tenham essa pretensão mesmo.
Eu fico com o tempo que passa depressa, que atravessa meus dias sem me dominar, sem que eu o controle.Eu fico com o resgate das tradições que me amarram e me fazem pertencer a alguma coisa.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pânico


UNHAS DO INCONSCIENTE
Num final de tarde, poucos anos atrás, eu mergulhei na escuridão. Estava
nos estúdios da emissora onde trabalho quando percebi a realidade se
afastando de mim. Nada havia acontecido de especial naquele dia, nenhuma
chateação além das habituais, minhas cenas tinham sido gravadas
regularmente, e era hora de voltar pra casa. Só que no momento de partir,
eu não conseguia fazer os movimentos corriqueiros para livrar-me do figurino
do personagem, colocar minhas roupas pessoais, pegar o carro, e sair dali.
Num esforço descomunal, e contando com algumas poucas fagulhas de
racionalidade, dei conta de arranjar um motorista que me levasse, deixando
meu próprio carro pra ser resgatado quando o mundo retornasse ao eixo. Por
sorte, o rapaz era quase mudo ou muito sensível e percebeu que o momento não
era pra conversas - perguntou apenas pelo endereço e tocou na direção.
Assim, por uma hora dentro daquele carro, fui mergulhando cada vez mais
fundo nos abismos turbulentos de um universo que me engolfava rápida e
violentamente. Quando cheguei em casa, cem anos depois, tudo estava escuro,
não havia alma, nem o cachorro estava ali pra me lamber a inquietação. Mal
conseguia andar.
Cambaleando, acendi uma luz no último quarto - único interruptor que
encontrei - fui ao telefone, e numa provação olímpica consegui discar pra
meu ex-marido. A cozinheira que fora nossa e agora trabalhava para ele
atendeu e percebeu que algo sinistro acontecia - apesar de mim, porque eu
não dizia coisa com nexo. A moça chorou do outro lado e desligou,
mas fiquei com a impressão de que ia me ajudar... Em outro soberano
esforço, me veio o número de uma amiga: "estou caindo da vida, vem me
salvar". Eu me enredava no mistério abissal e não havia ninguém pra me
trazer de volta - a solidão era paralisante. Tinha vergonha de mim, sentia
raiva, estava do outro lado de todas as fronteiras, mas a brutalidade de um
comando inconsciente me punha frágil e incapaz de escolher um caminho para
territórios mais estáveis. Olhei uma pessoa no espelho, não reconheci,
andei, respirei, rezei, deitei, gritei, andei, rezei, respirei, rezei...
Quando finalmente chegaram meus amigos, todos de uma vez, eu já voltava a
mim e ninguém parecia compreender que a loucura acabara de me visitar para
acompanhar-me ao mundo de lá. Tentei explicar mas, extenuada, não consegui.
O marido de minha amiga, que era espírita, me deu um passe. Meu ex-marido,
que era preocupado, me deu um pito, minha amiga que é esplêndida me deu um
abraço, e no final, rimos todos aliviados.
O que passou, compreendi depois, foi algo bastante comum que chamam de
ataque de ansiedade ou de pânico, e foi dos maiores medos de minha vida.
Jurei naquela hora, que jamais me permitiria outro momento semelhante, e até
hoje, benzadeus, não descumpri o combinado. Já havia tido, com o uso de
drogas, experiências de atravessar fronteiras para espiar o lado de lá, mas
nunca a loucura me havia batido à porta assim, a luz do dia, sem que eu a
provocasse.
A loucura permanente ou episódica dói terrivelmente, e isola do convívio com
outro. Por outro lado, ela descortina um universo caleidoscópico e
intangível para os normais. O matemático John Nash, que inspirou o filme
Uma Mente Brilhante, sofreu anos de alucinações fantasmagóricas e, com com grande esforço intelectual, aprendeu a driblar sombras paranóides. Em sua
autobiografia, ele diz: "Parece que estou pensando racionalmente de novo,
com fazem os cientistas". Mas ele acrescenta logo adiante: "Isto não é uma
coisa que me deixe totalmente alegre, como aconteceria no caso de ter estado
doente fisicamente e recuperado a saúde. Porque a racionalidade de
pensamento impõe um limite no conceito cósmico que a pessoa tem".
Se a gente nunca olhar pra fora dos muros da nossa cultura, de nossas
convenções, se não procurarmos territórios desconhecidos para adentrar o
ilimitado, também não conheceremos o paraíso na terra. Hoje, quando me
acontecem momentos de medo e que me vejo de novo presa nas unhas do
inconsciente, reencontro-me depois, quase agradecida. Aprendi a não ter
medo de sentir medo. Aprendi que a vida tem disso, e que se a gente se
deixa vagar um pouco pela escuridão sem pressa e sem atrapalhar, logo se
passa dali. E que depois das sombras existe o reino da imaginação onde vive
toda liberdade. E que ali mesmo dentro da gente, é onde nasce a luz de
sabedoria que ilumina e faz mexer o universo.
Maitê Proença, 2004

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

À procura do Natal



Caminharei em busca do presépio
a noite inteira, meu Senhor
Não haverá, porém, nenhuma estrela,
para guiar meus passos.
Todas as estrelas estarão imóveis
no céu imóvel.

Caminharei em busca do presépio,
a noite inteira, meu Senhor.
As estradas, porém, estarão solitárias,
tudo estará adormecido,
as luzes das casas, apagadas,
as vozes dos peregrinos terão morrido
na distância sem fim.

Caminharei ansioso à tua procura,
mas estarei tão atrasado,
o tempo terá caminhado tão na minha frente,
que me será difícil teu recanto humilde...
Cansado,encontrarei grandes cidades,
mas a tua cidade,Senhor, terá desaparecido...

Muitos se rirão de mim, sabendo que te procuro.

Não haverá nenhuma estrela
para mostrar o lugar em que te encontras.
Todas as estrelas estarão imóveis no céu...

Autor:Augusto Frederico Schmidt(1906-1965)/extraído do livro: As mais belas orações de todos os tempos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Fim de ano


Eu tenho uma preferência insuportável pelo fim de ano. Normalmente fico mais generosa, faço planos e tenho certezas absolutas... e redundantes claro. Rezo mais, sinto mais, invento mais. Acredito em grandes novidades, me informo sobre o tempo, saio da prisão que crio em mim todo ano. Eu gosto das luzes de Natal, do presépio, das canções e das pessoas que circulam freneticamente pelas ruas apressadas, entusiasmadas, felizes, nostálgicas.Eu realmente fico fascinada pelas datas festivas, pelo barulho,pela comida,pelo cheiro das coisas guardadas, novas. Sinto tantas saudades dos finais de ano que eu nem vi passar, só passaram por mim sem que eu percebesse. Fé, nessa época eu tenho mais fé, não aquela fragmentada pelos contrapontos que nos abastecem ao longo dos dias, mas aquela fé inteira, fiel. Meu corpo fica mais sensível, pesado e leve ao mesmo tempo, preocupado, mas alegre. A esperança deixa de ser miserável e se refaz com as intuições presentes, com os desejos que se misturam com as chuvas que teimam em cair no mês de dezembro, nem isso atrapalha. Nem faz com que os sentimentos fiquem impacientes e se desgastem, são só alguns dias para aproveitar. Eu nada mais faço: Aproveito esses dias que não se arrastam, mas se agarram a mim exageradamente.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Clarice





"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

Clarice Lispector

"O eu que Clarice Lispector persegue não é um que se encontra trancafiado em
sua individualidade, e, sim, um eu que se abre em possibilidades de dialogar como o
outro, que se dispersa e se metamorfoseia. Interessa-lhe investir no que se abriga na
caverna, no interior de cada um, justamente, por suspeitar da inexistência de uma
identidade pronta e definida, concebendo-a como algo que se instala fragilmente,
num ritmo de movência, de espraiamento que se constrói e se desconstrói a cada
instante-já, deixando vislumbrar um eu despedaçado e em fragmentação".

Escrito por Fernanda de Souza Teixeira em seu trabalho sobre:A FRAGMENTAÇÃO DO EU, uma leitura delicada sobre a obra Clarice Lispector.

sábado, 21 de novembro de 2009

Lembrei



Lembrei de me esquecer a tempo
Perdi meus maiores achados
Odiei por amor
Utilizei coisas inúteis
Paguei caro por prazeres baratos
Desafiei a lâmina afiada
Enterrei um sapo no terreiro
Quis não ter querer
Tentei não cair em tentação
Mas livrei-me dos livros
Pois eles não me livraram.
(Mauricio Baia/ Gabriel Moura)
http://www.youtube.com/watch?v=RSEsFtiDoLM

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Leitura obrigatória para nossa ansiedade de informação:












O Prazer de Ler: Sobre Leitura e Burrice

Ler pode ser uma fonte de inteligência. Freqüentemente é uma fonte de emburrecimento. Muitas, pessoas, inteligentes por nascimento, ficaram burras por excesso de leitura. Essa afirmação contraria aquilo que os professores dizem e fazem. Eles acreditam que livros, quanto mais, melhor. E a partir desse princípio, emprestado por analogia da antiga etiqueta culinária mineira, obrigam os seus alunos a ler lista infindáveis de livros - provas da seriedade de seu saber e do rigor de seus cursos: Na antiga culinária mineira era assim: vinha a dona da casa e enchia o prato da gente - e a gente comia com prazer. Aí, quando o prato estava raspado e limpo, a gente feliz com a barriga cheia, vinha ela com outra concha cheia e, sem pedir licença, reenchia o prato vazio que a gente era obrigado a comer. Essa prática se baseava em duas pressuposições. A primeira dizia que os estômagos são muito maiores do que parecem. A Segunda dizia que as pessoas sempre querem comer mais, e não o fazem por acanhamento. "Livros, quanto mais, melhor" é tão verdadeiro quanto "comida, quanto mais, melhor". Nietzsche disse que leva muito tempo para a gente ter coragem de dizer o que sabe. Faz muito tempo que sei que o excesso de leitura faz mal para a inteligência, mas nunca me atrevi a dizê-lo. Tinha medo de ser condenado à fogueira. A coragem me veio quando descobri um aliado: um livrinho muito pequeno - pode ser lido em meia hora -, Sobre livros e leitura. Autor: Arthur Schopenhauer. Como ninguém se atreverá a acusar o filósofo inimigo da leitura e do pensamento, transcrevo o que ele escreveu: "Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental. Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios". Em outras palavras: ler é um exercício de alienação. Alienação é a palavra que os ativistas políticos de eras passadas cobriram de excrementos. Nome feio e malcheiroso. Foi identificada com um estado no qual a pessoa não tem consciência do que está acontecendo no mundo em que vive, o oposto da tão louvada "consciência crítica", expressão obrigatória em todo o documento sobre educação. A palavra vem do latim, alius, "outro". O alienado é uma pessoa que está fora de si, caminha num mundo que não é o seu; é de outro. Para ler é preciso fazer "parar meu mundo". Se o mundo que me é próprio não for "desligado", não poderei entrar no mundo que se encontra no livro. Abro o livro. Desligo meu mundo. Começo a leitura. Entro num mundo que não é meu; é de outro. A alienação é uma das fontes do prazer da leitura. Por meio dela sou capaz, ainda que por um curto espaço de tempo, de sair de minha realidade e viver a realidade do outro. Ainda ontem, relendo a parte final do livro Zorba, comecei a chorar. O feitiço da leitura faz com que eu me esqueça de meu mundo e me transporte para o lado de Zorba. Esse exercício voluntário de alienação é parte da boa saúde mental, e quem não consegue fazê-lo é porque está meio enlouquecido. Mas aquilo que é remédio, no varejo, vira veneno, no atacado. Schopenhauer continua: " Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas, uma sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação: é só com ela que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma como a comida não nos nutre pelo comer mas pela digestão". Ele continua: "É por isso que, no que se refere as nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante". Por vezes, ao ver as listas de livros indigestos e sem sabor que os professores obrigam seus alunos a ler, tenho visões infernais de um buffet imenso, centenas de pratos - que os alunos são obrigados a comer (digerir e assimilar é outra coisa. Via de regra a refeição acadêmica termina em vômito ou diarréia. O engolido é esquecido). "Esse é o caso de muitos eruditos: leram até ficarem estúpidos. Porque a leitura continua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos". Nietzsche pensava o mesmo. Eis o que ele disse no Ecce Homo: "Os eruditos, que hoje nada mais fazem que dedar livros (ir virando as páginas com o dedo), acabam por perder inteiramente a capacidade de pensar por eles mesmos.
Enquanto vão lendo não pensam. Os eruditos gastam todas as suas energias dizendo Sim e Não na crítica daquilo que outros pensaram - eles mesmos não tem mais a capacidade de pensar. Vi com meus próprios olhos: pessoas bem-dotadas e com liberdade de espírito que, aos trinta anos, já haviam lido a ponto de se arruinar..." É um equívoco imaginar que a quantidade de livros lidos desenvolve a capacidade de pensar. Comida ingerida em grande quantidade prova perturbações digestivas ou obesidade. Eruditos, com freqüência, são obesos de espírito. Livros lidos em grande quantidade provocam perturbações no pensamento. Borges, numa conferência sobre "O livro", cita Sêneca, quem censura o dono de uma biblioteca de cem livros. "Quem", ele pergunta, "é capaz de ler cem livros?" Nietzsche, no mesmo espírito, diz que ele se contentava em ler poucos livros. E acrescenta: "Uma sala de leitura (salas enormes, nas bibliotecas, onde se vai ler) me deixa doente". Pelo que conheço das práticas escolares, esse é o resultado das leituras, nas escolas. Os alunos aprendem que as coisas importantes estão escritas em livros, e com isso eles são desencorajados de pensar seus próprios pensamentos. Pesquisar é fazer resumos dos artigos da Barsa. Num trabalho acadêmico, tudo o que o aluno diz tem de ser confirmado por aquilo que outro disse num livro - um nome e uma data entre parênteses. Os alunos terminam por pensar que a educação é parar de pensar seus próprios pensamentos e pensar os pensamentos de outros - pelos quais eles não têm o menor interesse. Valendo-me das metáforas culinárias, atrevo-me a dizer, com freqüência, as chamadas avaliações escolares (as provinhas) são ocasiões pós-refeição em que provocam vômitos intelectuais nos alunos, para verificar se o vomitado é idêntico ao que foi engolido. Eu me alimento de alguns livros diariamente: eles podem ser maravilhosos. Mas é preciso que sejam comidos com prazer para fazer bem à inteligência. E note que "prazer" não quer dizer "facilidade". Existe um prazer imenso em escalar uma montanha...Livros comidos com prazer são livros a serem ruminados pelo resto da vida. Livros não-ruminados são livros esquecidos. Não entraram no sangue, não viraram carne. Mas ruminação é virtude que se deve aprender com as vacas. Rumina-se num tempo de vagabundagem, de paciência e pachorra, tempo quando não se pasta. Mas essas são virtudes que os educadores não conseguiram incluir em suas pedagogias e psicologias.

Texto extraído do livro "Entre a Ciência e a Sapiência: O Dilema da Educação", de
Rubem Alves, Ed. Loyola.

O fim é lindo


Fabrício Carpinejar


Minha casa é estranhamente regulada. Quando uma lâmpada queima, as outras vão junto. É um boicote que aumenta em minutos para testar a paciência. O gás da cozinha falta bem no momento da janta, e logo de madrugada, com o objetivo de me constranger ao telefone com uma lista infindável de entregadores. Se o computador estraga, o chuveiro também e o microondas sofre problemas de circuito. Confio que os aparelhos se imitam e conversam entre si. Devem reivindicar melhores condições de trabalho e uso, cobrar insalubridade, ou estão cansados das extensões e da sobrecarga indevidas. O certo é que minha casa é grevista. Insurgente. Nunca acontece de algo quebrar isoladamente.

Cheguei a minha residência depois de uma série de viagens. E mal acendi a luz, puf, puf, puf. Meu dedo estalou em cada interruptor. Teve até choque. Foi patético, para não dizer desanimador. Corredores mexendo as sombras, as paredes escorrendo a cegueira.

Mas, um pouco antes de explodirem, as lâmpadas aumentaram sua fosforescência. Puxaram todo o resto de força para refulgirem a extinção. Estenderam seus aros como nunca antes, com a potência de um refletor.

O mesmo ocorreu com o gás de cozinha, a chama das bocas subiu com perigosa curiosidade. Poderia ouvir o fogo gemer. Ele escurecia as bordas das panelas com sua assinatura. Quase formava os dedos de uma mão.

Conclui que o fim é lindo.

Assim como as luzes da casa e do fogão, o amor perto do desastre não se economiza. Não mais se contém. É desesperadamente transparente.

Um casal diante do fim terá a grande noite de sua vida por não prever uma próxima. Sairá do esconderijo porque não se vê mais seguro. Mostrará do que é capaz. Queimará o que guardou, não fará mais nenhum jogo, esquecerá a sedução e os conselhos dos amigos. Mais intensidade do que intenção.

É o escândalo da verdade. Tímidos se transformam em terroristas, calmos ficam enervados, pacientes se portam como histéricos. Por um instante, não há medo de fazer as propostas mais desvairadas, confessar palavras reprimidas, estender os olhos como um lençol limpo.

O fim é lindo. Do crepúsculo, de uma vela, de uma chuva. O fim é esperançoso, exigente. Pancadas de beleza. O som e o sol pulam como um suicida ao avesso para dentro da vida.


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Violetas


"Flores à mostra e música.
Prosa.
Doce e sal.
Dor e gozo.
Aconchego... só vestígios,
Consolo, preciso de recanto.
Ficar ou ir?
Cair.
Desatino ou piedade?
Coragem.
O corpo me abandona a cada dia.
E qual é o lugar do meu alívio?
Escolhas, pensamentos impróprios.
Caos, me tirem daqui!
Eu preciso ir agora.
Já é tarde e sinto frio,
Pra vocês é cedo e ainda faz calor.
Permitam que eu me retire.
Esgotei minhas reservas,
Não há mais nada que eu ou você possamos fazer.
Estou de partida,
Preciso que me beijem, que me aceitem, que me apertem!
Eu preciso me sentir pela última vez.
O toque das suas mãos, o calor do seu corpo, o som da sua voz.
Desfaleço."

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Clínica do Trágico




Luiz Felipe Pondé, filósofo, psicanalista, doutor em filosofia moderna, participou do café filosófico em Campinas. O vídeo com algumas de suas colocações é excelente! Ele contradiz os pilares da psicomotricidade, da psicologia cognitiva, enfim de qualquer utopia que nos prenda.

http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-clinica-do-tragico